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ÍNDIA - No Topo do Mundo, pelo Paraíso Perdido do Ladakh ( post 2).



A combinação que nos leva ao devaneio



A travessia pelas mais altas montanhas do planeta nos presenteia com cenários variados. Nuas ou vestidas de gelo, as montanhas assumem formas dominantes. O topo do mundo é inebriante, numa combinação que nos permite estar na fronteira, no limiar, no devaneio. Um êxtase que o ar rarefeito parece acentuar como se estivéssemos sempre na condição de sonhar. Uma sucessão de imagens de pequenos oásis, dos inúmeros vales. No maior deles, o vale do Rio Indus, há rebanhos conduzidos por levas nômades, viajando no verão de um vale a outro em trilhas ancestrais, gompas e stupas, onde a palavra e a prece alcançam o mistério de uma fé contagiante.

Já vistes o balé dos fieis em prostrações em frente aos templos?

As muitas peregrinações nos passos superiores, a 5 mil metros com bandeiras de orações?

Não é apenas coincidência. Nos muitos Shangri-las do Himalaia, o produto interno bruto mais valioso é a felicidade estampada nos rostos dos povos. Mas, não a confundamos com uma rotina idílica.

Em nossa visita ao Ladakh, a partir de Leh, percorremos inúmeros povoados, alguns diminutos, tão pequenos que não contavam com mais de cem membros. Visitamos vários monastérios. O Ladakh tem uma população bastante variada: os dardos animistas, os baltis shias (islâmicos) e os Ladakhis budistas. Os baltis têm feições centro-asiática, os dardos, caucasianas.

Na manhã do dia 14 de junho, fazia frio quando partimos em direção a Lamayuru (Se quase todos os monastérios do Ladakh foram erigidos em posição de destaque, nos penhascos, Lamayuru tem esta qualidade de fácil acessibilidade. É plano, e em meio aos jardins, o estilo ímpar da construção sugere intimidade e proximidade ). Pelo caminho, na maior parte do tempo, ladeamos o rio Indus e éramos constantemente surpreendidos por jatos d'água sendo espargidos para dentro do nosso veículo. A água gélida era esparramada pelos vidros enquanto víamos as faces satisfeitas e marotas das crianças sorridentes.

Maravilhada, eu, que vinha no banco da frente e ficara toda molhada, interroguei ao nosso guia local: "Mas do que se trata?". "De uma festa local", ele respondeu. Penso comigo: "Mas já vi isso antes, no festival das águas". E interrogo mais uma vez: "Que festa é esta?". E ele me responde, "É o Wesak". Nesse momento, me confundi; afinal, em tantos anos percorrendo os caminhos budistas, se há algo que sei é que o Wesak é celebrado em Maio, no plenilúnio de Maio, quando o sol entra em Touro. Todos comemoram em Maio (no Tibete, no Kailash e em Shigatse, na Índia, em Dharamsala).

O Wesak comemora três acontecimentos importantes na vida do Buda Shakyamuni, o iluminado do clã dos Shakyas, do qual o príncipe Sidhartha Gautama era descendente: seu nascimento, sua iluminação e sua passagem daqui para a eternidade, realizando o Nirvana e atingindo o último dos céus.

Nosso guia nem sequer titubeou: "Nós aqui comemoramos hoje. É Wesak, ou melhor, o Saka Dawa (em tibetano). O calendário lunar se ajustava ao calendário festivo da localidade e, por isto, a presença de Vossa Santidade, o 14° Dalai Lama".

Fomos ao encontro da peregrinação no monastério de Lamayuru. O conjunto, com suas várias construções e santuários, estava em plena celebração. Era a verdadeira imagem de uma Shangri-la, venerado como o mais antigo monastério do Ladakh, em efervescente visitação. Monges e monjas em coro, tambores e mantras, preces uníssonas que ressoavam ininterruptas por todo o complexo. Uma multidão imersa na contemplação, centenas de velas acesas e um incessante movimento de peregrinos chegando, sendo recepcionados e alimentados. Foi tão difícil deixar o lugar, mas era preciso ir para onde o povo está. Nosso próximo destino era o Sikkim, outro dos Shangri-las do Himalaia.



"Felicidade se acha em horinhas de descuido" - diria Guimarães Rosa. E em alguns roteiros de viagem também.

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