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A Saga do romance entre o Rei Salomão e a Rainha de Sabá (Post 02)

O Iêmen por ele mesmo

A primeira vez que nossos destinos se cruzaram, eu estava emaranhada nos fios da seda. Não propriamente com o mais cintilante e sofisticado de todos os tecidos jamais desenvolvidos, mas em busca daquilo que dele tem se dito: o segredo mais bem guardado da história; 2000 anos de monopólio chinês. Mais tarde, descobriria que, além da seda, a grande rota encobriria muitos outros segredos e mitos. 

Pelo visto e pela tradição oral, a lendária rainha tinha tudo o que pedia do rei de Jerusalém.

Salomão não só consagrou Menelique rei, com o nome de David, mas ordenou a cada um dos grandes de sua terra que lhe desse o primogênito, para integrar o séqüito de Menelique no retorno a casa.

Menelique legitimou a monarquia etíope e pôs fim ao antigo costume dos abexins - do qual a rainha de Sabá é representante - de só reinarem donzelas, as quais não se permitia desposar. E, mais, segundo alguns, deu causa ao aparecimento da progênie a décima terceira tribo de Israel, perdida nos confins das terras altas africanas, pelos descendentes de Menelique e dos camaradas que o acompanharam de retorno a Etiópia.

Há uma grande disputa e controvérsia quanto à localização do reino de Sabá, se etíope ou iemenita. É bem provável que a verdade sobre a origem e localização deste reino esteja tanto aqui como lá. Se, de fato, crermos que tanto um quanto outro existiram. A dúvida não é minha, mas de uma corrente histórica.


Para além da duvida ou da ausência de provas cabais da existência de Sabá ou de Salomão, o fato é que os contatos entre as duas margens do mar vermelho datam de 1500 a.C. O Bal - el Mandeb tem apenas 32 km de largura, facilitando a passagem dos barcos de uma a outra costa.

Muito próximas e com clima e geografia semelhantes, as gentes da Arábia do Sul, não encontraram dificuldades de adaptação na costa vizinha. Ao contrário, à medida que cresciam as oportunidades de comércio, permaneciam. Desde tempos remotos, eles entenderam e usufruiriam da posse das duas margens do Bal el Mandeb para o domínio do comércio da região. Da antiga Abissínia, sabiam onde ir buscar marfim, peles, ouro, plumas e vários outros produtos exóticos que encontravam clientes e mercados seguros.

Pelos relatos de historiadores, não houve, a princípio e por muito tempo, conflito nem domínio de um sobre o outro, mas um tácito acordo entre os reinos da Arábia do Sul e seus vizinhos africanos que viam a dupla defesa destas costas como um negócio oportuno e vantajoso na defesa de seus interesses.

Entretanto, conforme os reinos da Etiópia e da Arábia se fortaleciam e se expandiam, os conflitos pelo controle do mar vermelho eram inevitáveis. No século II de nossa era, o Reino De Axum lutava contra a hegemonia dos reinos de Hadramaut, Qataban, Sabá e Marib. Assim, os reinos se encolhiam ou se estenderiam de acordo com as fortunas ou os azares da guerra.

Dessa forma e apenas por conjectura, me arrisco a formular que a Rainha de Sabá, regente do povo de Sabá, os Sabeus, num determinado período, reinasse direta ou indiretamente sobre uma vasta área que se estenderia para além de ambas as costas que protegeriam o mar vermelho. Ou, de outro jeito, sendo a rainha da Arábia, seu reino se estenderia para além do estreito, na outra margem do mar vermelho.

Só um detalhe me intrigava: no livro dos Reis, a rainha assim se apresentaria: "Sou negra, mas bela".


Ao desembarcar em Saná, capital do Iêmen do Norte, tão logo deixei o aeroporto - o único lugar soturno que encontrei no país - me surpreendi com o que vi. A Arábia Felix mal mostrava a sua face de felicidade e eu já estava me sentindo a própria Sherazade nas mil mais uma noite das Arábias. Arábia Felix teria sido o título cunhado pelos romanos para designar aquelas que seriam as terras mais férteis da península; todo o restante, exceto por alguns breves suspiros geográficos, era um mar de areias causticante, o nada por excelência.

As terras da Arábia foram "vítimas", de fenômenos físicos, relacionados com os movimentos que afetam a maneira da Terra girar no espaço. Como conseqüência dessas mudanças, teríamos os ciclos que alteraram dramaticamente o clima na terra, afetando particularmente e definitivamente algumas regiões geográficas.


Há 12 mil anos atrás, a temperatura na Arábia teria atingido 60º C. Não teria sobrado ali alma viva, nem possibilidade de vida. Porém, passado o fenômeno descrito por Milankovitch, quando o ciclo chegou ao seu termo e a terra corrigiu o seu eixo, as chuvas sazonais retornaram e promoveram a chegada daqueles que repovoariam a Arábia.

Ao sul da península, a cadeia de montanhas é capaz de capturar a umidade trazida pelos ventos que sopram dos mares vizinhos para o interior do continente, bem na fímbria do deserto. Isso bastou para que uma civilização extraordinária se desenvolvesse. Sua importância na história dos grandes impérios da antigüidade já não é desprezada, mas haveremos de lhe reservar no palco da história, muito mais dias de gloria; a civilização sabea e sua contribuição mundo afora.

Em fevereiro de 2003 nós chegávamos á terra dos Sabeus, segundo muitos, na contramão da ocasião para visitas. Não havia mais dúvidas quanto à eminente invasão americana às terras iraquianas. As embaixadas estrangeiras em Saná já promoviam a evacuação de seus membros, como medida de prevenção a possíveis retaliações do Iêmen do Sul.

Nosso visto requisitado à embaixada iemenita na capital etíope havia sido negado duas vezes. Quando recebi a notícia de que a permissão novamente havia sido recusada, estávamos no Lago Tana. Passei a noite acordada, mas sem alertar meus companheiros de viagem.

À noite, revi com minha companheira de quarto, Rosa Ornella, minuciosamente, o plano B, que só seria executado se concluíssemos que a visita ao Iêmen causaria algum tipo de risco às nossas integridades físicas. Avaliei a situação e cheguei à conclusão de que o risco, se houvesse, estava longe da capital, e, ainda que Marib estivesse no programa de viagem, eu simplesmente não via razão para tamanho alarme.

Na manhã seguinte, liguei à minha representante em Adis Abeba, uma bela e altamente sofisticada etíope.

Tentei ser convincente. Não havia razão para tanto alarme...

- Mas Márcia, vocês estarão no Iêmen ao fim do Eid.

- Como?

- A festa que encerra o Hajj, quando os muçulmanos retornam de Meca; não é uma data propícia.

Embora soubesse exatamente em que período estavam, o termo Eid era desconhecido.

Todos nós tínhamos, à medida do possível, acompanhado os noticiários e eu, simplesmente não via motivo para cancelar a viagem.

Queremos tentar. Quero explicar às autoridades quem somos e de onde viemos. De muito longe. Longe mesmo. E, somos viajantes, acostumados a certos imprevistos.

- Deixe-me tentar!

- Não vai funcionar.

E, Consuelo me diz:

- Eles afirmam que não há trâmite anterior concedendo vistos a brasileiros.

- Como não?

- Eles nem sabiam onde ficava o Brasil!

- Diga-lhes que é o país do futebol e que faremos exatamente o que nos permitirem. Insisti, já disposta a negociar nossa ida a Marib.

- Vou tentar, mas acho difícil...

Então, bastante constrangida... Constrangida como agora, disse:

- Consuelo, não sei como funcionam este tipo de coisas no Iêmen, mas no meu país... - Parei pra pensar no que eu estava prestes a dizer. Um hiato de arrependimento? Até onde eu iria? - No meu país, quando as coisas ficam muito difíceis, às vezes custam mais caro. Mas seria preferível pagarmos por mais trabalho, como criar o trâmite na embaixada, do que voltar pra casa. Estamos de acordo em pagar bem mais pelo trabalho.

Um hiato na linha. Longo o suficiente pra que eu pensasse que havia ido longe demais. Estraguei tudo.

- Consuelo?

- Isso não é da minha alçada, vou falar com o meu chefe. Se houver notícia, qualquer que seja, é ele quem vai lhe dizer.

Parti para Harar - a porção muçulmana da Etiópia com o coração na mão, minhas angústias, apenas compartilhadas com minha companheira de quarto, Rosa Ornella, que tentou por dois dias arduamente amenizar a minha frustração.

- Por que não vamos a Ngorongoro ou a Zanzibar?

- Nem pensar.

Dias depois, na tarde anterior à data de nosso já quase improvável embarque ao Iêmen, no retorno a Adis Abeba, assim que pus os pés na recepção do hotel, me passaram uma ligação.

A voz firme e breve anunciou:

- Os vistos deram mais trabalho, mas estão a caminho.

A caminho do souk, na antiga Saná, cidade murada guardada por sete portões, sendo o principal, o Bal El Yemem, e diante dele, me sentia como se estivesse no sétimo céu. Feliz.

Muito feliz da vida.

Entramos no mundo mágico do souk de Saná: as construções de pedra, típica das terras altas, uma mescla de pedra e tijolo cozido, eram adornadas em gesso que emolduravam janelas de vidros coloridos. A luz do dia filtrada pelas vidraças refletia o caminho da cor em movimento. O resultado: um biscuit da mais fina harmonia.

No mercado, uma sucessão de vielas e labirintos, onde reina a mais perfeita organização, o caos do fervor da criação, disciplinando todos os elementos: crianças, carneiros, as mais cobiçadas mercadorias da rota, moradores, estrangeiros residentes, turistas, preces da mesquita, barulhos de marcenaria, sapateiros...

Nosso guia local, Armed, tentava se acostumar com o ritmo brasileiro. Lento, muito lento. Porém ele também se mostrava feliz e condescendente. Para ele, éramos o primeiro grupo de brasileiros que recebia. Naturalmente, Armed não era um guia local, mas havia sido chamado especialmente para nos atender, na intenção de tentar satisfazer minhas freqüentes exigências das qualidades de quem nos deve acompanhar. Armed havia sido selecionado com cuidado especial. Educado na Inglaterra, era um homem de nível cultural diferenciado. Ao invés de ficar na Inglaterra, o que teria sido muito mais fácil, tinha decidido retornar a sua própria terra onde havia muito que se fazer. Nos acompanhar, por exemplo.

Vestia jeans e camisa social e se mostrava surpreso de como estávamos corretamente vestidos, respeitando os costumes locais, ou seja, vestidos e vestidas dos pés a cabeça, sem a burca, apenas uma vestimenta modesta. No Iêmen, nunca me senti ameaçada, mesmo quando o xale resvalava e deixava a mostra os cabelos ou parte deles. Em Saná, inclusive, as estrangeiras residentes não usam o véu.

- Márcia, seus cabelos parecem de uma sabea.

Pensei: "meus cabelos são de uma hebréia, mas, àquela altura, sabia que a linha era mesmo muito tênue. Costa e Silva afirma que os refugiados hebreus já se abrigavam na península desde a destruição do primeiro templo, mas ainda assim me calei.

- Qual é sua religião?

Armed deveria saber, supus, já que tinha estado com todos os nossos passaportes na mão por um bom tempo...

- Armed sou judia - e continuo - mas já fui casada com um árabe. No Brasil é assim, emendei até que percebi que era desnecessário...

Naquele momento, caí nas graças de Armed. Definitivamente, havia alcançado um voto de confiança incontestável, imagino de mutação de qualidade. Estava salva.

Durante os oito dias que estivemos juntos Armed foi um incansável tradutor do Alcorão, das verdades do Islã. De fato, isso não me incomodava; ao contrário, devo admitir que a sua sutileza e eloqüência me agradavam. Ainda, sobretudo, não deixei de notar o espaço respeitoso que me reservava quando nos deparávamos com o pouco que havia sobrado de uma forte presença judaica nas terras iemenitas.

Em Thula ou Thilla, uma das mais bem preservadas construções de pedra, típica das terras altas iemenitas, havia por séculos protegido sua população de inúmeras invasões. Construída no topo da montanha, dela quase não se distinguia, ao contrario, se mimetizava.

Armed se aproximou e fez questão de indicar todos os símbolos das construções israelitas.

- Ali uma pequena sinagoga, lá um Mezuzá, ali um maguen Davi...

Ainda que não estivesse na pauta de meus interesses imediatos, era notável a presença e a força da comunidade. Uma menina vem mostrar aquilo que ela se apressa em dizer ser uma típica jóia judia, mas Armed, com um movimento suave, me retirou da cena de venda e fez um longo aparte:

- São cópias, pobres. As que os joalheiros judeus faziam eram obras de arte, talentos de mestres e não de aprendizes. Antes de serem expulsos (1949, 1950), os artesões foram obrigados a ensinar aos seus aprendizes iemenitas a arte da joalheira, mas não houve tempo suficiente para aprenderem o ofício corretamente. Estas são cópias mal feitas, vendidas como originais. Não poderiam ser originais, porque quando suas possuidoras morriam as jóias eram derretidas e outras feitas com o mesmo material.

Comprei a peça. Primeiro, porque, mesmo mal feita, era, aos meus olhos, muito bonita e, depois, pela origem.

Continua no próximo post.

Quem Leva

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Próxima Partida: 30 de março de 2020 

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