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"Sob o céu que nos protege" Uma trajetória pelo Niger no coração do Saara



Devo admitir: há algum tempo os desertos me fascinavam. As viagens pelo Gobi, nos rincões da China, explorando ruínas e oásis, somada às imagens desconcertantes do Taklamakan, ainda que muito as suas margens, e às dunas de cor acobreada do deserto do Wadi Rum, no pôr do sol da Jordânia. Todos esses desertos agora fundiam-se em inúmeras paisagens capazes de traduzir tão profundamente a vontade de encarar a derradeira experiência. Já que os desertos revelavam-se mesmo definitivos, chegava então a hora de preparar-me para o confronto com o maior ícone de todos eles, um verdadeiro mito: o Saara. Abro o mapa para descobrir o tamanho deste desafio: 9 milhões de quilômetros quadrados, compartilhados por 11 nações, entre as quais apenas duas mostram-se quase completamente saarianas. Deparo-me então com a Líbia e o Egito, que instalaram em mim uma dúvida determinante. Por onde começar a exploração? Bernardo Bertolucci filma a estória de um casal decidido a atravessar o deserto, confiando no poder terapêutico que esta travessia lhes faria. E, eu estava mesmo precisando de algo semelhante!

Mas, antes, no filme "Marocco", vemos a figura de Marlene Dietrich a pé pelo deserto em lenta peregrinação. E, ainda, no aclamado "Paciente Inglês", drama encenado durante a Segunda Guerra Mundial, acompanhamos a estória de um homem que relembra o passado e a perda da mulher amada. Detive-me analisaando detalhes e diferenças. Se o Egito tinha a força e o fausto das dinastias faraônicas, o Niger - pouco explorado - parecia um território seguro e fértil. O território dos homens azuis é um clássico de qualquer literatura e cinematografia. Afinal quem de nós não assistiu "O céu que nos protege" de Bertolucci. Em todas essas narrativas cinematográficas é o deserto que desempenha um papel definitivo. Mais que um personagem, é uma entidade. Deserto deriva de desertar, ato se despir do excesso para se chegar ao centro, à essência. Os grandes espaços do Saara não são apenas paisagens, mas palcos para transformações. O olhar sem obstáculos se rende a um horizonte que se desnuda completamente. É este cenário, perene, não obstante à passagem do tempo, que nos convida a uma grande jornada interior. Decidi-me pelo Níger, ícone maior de todos os desertos pela sua amplidão e mares de dunas em constante movimento.



Á minha chegada em Agadez, fiquei acomodada no melhor hotel da região. O Tellit. Modesto, para quem chega, e fantástico para quem retorna das muitas vias possíveis Niger adentro ou deserto a fora. Ganhei imediatamente as ruas da cidade, Agadez, é um símbolo emblemático do espírito das antigas caravanas.  Pelas ruas, desfilavam as tradicionais vestimentas tuaregues. Os homens chegando e partindo, num movimentado burburinho. E, por todo lado, a vista da grande Mesquita de Agadez, de barro batido em estilo sudanês. Mais, uma vez, lembrei das cenas de Bertolucci, a mesquita era o pano de fundo na chegada dos atores protagonistas. E, pensei: o que me aguardaria na trajetória em perspectiva? Que drama ou qual o reencontro? Ao fim da tarde, no pequeno terraço, uma visão inesquecível. A mesquita de Agadez me confortava. Nossa rota era um périplo de 1 semana partindo da capital do deserto Agadez. Na primeira etapa do percurso, seguindo sempre rumo ao norte, nas trilhas que cruzam o coração das montanhas do Air, entre altiplanos rochosos em meio aos oásis, até um dos mais belos jardins de nosso percurso: Timia, que nos estende seu tapete verde em meio ao terreno vulcânico. A partir de então, abriu-se o grande Vale do Zagado, onde encontramos muitos assentamentos de Tuaregues do grupo Kels Tedele, considerados os derradeiros cavaleiros do deserto. Entramos, então, na segunda fase da nossa travessia, quando contornamos as bordas norte orientais do Air, lá onde as areias se insunuam entre formações vulcânicas e metemórficas, criando uma paisagem excepcional de dunas e alívios rochosos. Neste cenário, Illakane é uma engenhosidade da natureza, entre as montanhas de rochas calcárias - com suas várias tonalidades do mármore. Enfim, chegamos a Temet, nas dunas mais altas do Saara. Foram precisos 4 dias para deixarmos o universo montanhoso do maciço Air, um circulo contínuo de montanhas para que tocássemos as longas extensões de areia em uma seqüência de dunas moduladas pelo vento, como num mar em movimento. É surpreendente. De dia vasculhávamos as regiões, entrávamos nas pequenas vilas e mercados; observávamos e éramos observados pela população local. No mercado, as cores dos véus encobriam as faces das mulheres do pudor islâmico e do sol caustrificante. Acompanhávamos cada vez mais crentes as chamadas das orações: cinco vezes ao dia, em sua régia disciplina. Se a religião do Islã era a da grande maioria, as marcas nas faces das etnias facilmente denunciavam vestígios das religiões pré - islâmicas, com seus códigos e leis naturais norteando a vida e as relações humanas. E, ao fim da tarde, nosso guia principal, escolhia o terreno apropriado para o pernoite. Resguardando-os do vento, quando invariavelmente, e bem posicionados, assistíamos ao espetáculo do por do sol. Logo após, a equipe distribua para cada participante 3 litros dágua morna para o banho. Assim cada qual se dirigia a um determinado espaço, afastado do corpo da expedição para o banho abençoado. Se alguém se sentiu incomodado, não manifestou o incomodo. Ao contrário, o banho privado ou coletivo era sempre motivo de alegria e descontração, E, as vezes de uma espécie de estupor pelo céu estrelado, pelo silêncio e pelo estado de total abandono e despreocupação. Á noite, juntos aos companheiros de viagem, o suporte e alguma inesperada visita no local, nos sentávamos nos tapetes para a refeição, especialmente planejada e balanceada e compartilhávamos o dia, as experiências, a vivência. Não nos cansávamos de falar sobre as populações que encontrávamos, tão bem adaptados a vida no deserto. Esses senhores do tempo continuam nômades, por excelência, guiados por esta forma de agir e pensar, cuja herança é patrimônio dos povos do deserto. Compartilhávamos bules e mais bules de chá. Invariavelmente, havia para cada um o momento de silêncio, de ver as estrelas cadentes e organizar os pensamentos. As noites no deserto do Niger foram maravilhosas. O céu parecia se fundir à altura do solo, formando um esquema inédito de corpos celestes. Ainda havia o crepúsculo. Uma matriz de cores percorria um longo e artístico percurso: do alaranjado, rosado, ao extremo violeta. Manhãs frescas, tardes quentes e noites freqüentemente frias. Este era o cenário vivo que nos rodeava. Esta semana de expedição no Níger, permitiu-nos reconhecer a diversidade de paisagens sob um tema que muitos crêem único: superfícies como o deserto rochoso, as grandes extensões de areia, e os Ergs, que são os cumes de dunas de areia moduladas pelos ventos e o Sahel ou a praia do deserto. São todas variantes tão surpreendentes quanto as grandes dunas, as quais, embora sejam a clássica representação do Saara, respondem apenas por 15 a 20 % de sua paisagem. Descobrimos, enfim, que aquilo que realmente faz da África duas Áfricas é o enorme deserto, a estender-se do Atlântico ao Mar Vermelho. É ele que determina no continente duas realidades: a mediterrânica e a subsaariana. Difícil encontrar uma palavra capaz de descrever a trajetória que vivemos pelo Niger - no coração do Saara ou uma imagem na qual pudéssemos aprisioná-lo. É vir e vivê-lo. Márcia Sztajn Créditos da fotografia: acervo Pessoal Márcia Sztajn

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