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VOZES DA ÁFRICA: Um encontro com os Dogons em Mali (post 01).



Dogom, viveram longos períodos sob as mais diversas ameaças. Seja pelas imposições de novas ordens religiosas (o Islamismo, por exemplo, crescia e requisitava fiéis, adeptos e mão-de-obra escrava, que se ia buscar entre os não-fiéis, sobretudo nos povos animistas); seja pela imposição política de grupos, cuja expansão de territórios e poderes impunham vontades e costumes, forçando assim o deslocamento daqueles que, não-capturados, resistiam à submissão destas novas ordens.

Outras circunstâncias igualmente dramáticas se sobrepunham a estas: mudanças climáticas, as quais alteravam o ecossistema do qual estes grupos visceralmente dependiam, também foram responsáveis pelo deslocamento e readaptação dos que migravam para outras áreas em busca de água e alimento.

A falésia de Bandiagara no Mali, uma fratura geológica de aproximadamente 200 km de extensão, localizada entre a savana e a planície do rio Niger, serviria então como refúgio natural para os Dogon. As paredes escarpadas da rocha ofereciam proteção e abrigo, por camuflarem perfeitamente as casa Dogon. Construídas da mistura de argila, palha e esterco bovino, elas eram e ainda são quase indistinguíveis à distância. Esse mimetismo, nada casual, em uma topografia belicosa era de fato ideal. Erguidas junto às paredes mais altas do penhasco, suas casas só eram acessíveis através da escalada da rocha (algumas ainda o são), sobretudo aquelas que serviram de objeto para a ocupação inicial. O terreno, aqui e ali pontilhado de pedras soltas, dificultava a escravização de seus membros por grupos de cavalaria. E, do alto da falésia, a vista privilegiada sinalizava a aproximação da ameaça quando ainda poderia ser evitada ou seu impacto, minimizado.

Os Dogons chegaram à falésia por volta do século XV, época da expansão do Império do Mali. Mas o local já era habitado por outros povos. Há registros de habitantes na falésia desde 3000 anos antes de Cristo. Os Telem, que foram absorvidos pelos Dogon, por influências recíprocas ou obrigados a se deslocarem, deixaram, além de outros, o grande legado das cavernas. O local mais sagrado para os Dogons, que abrigam sepulturas, pontilhando a verticalidade da falésia, erigidas nos pontos mais altos, só acessíveis aos mais hábeis escaladores através de cordas feitas da fibra do Baobá.

Entretanto, nestas trajetórias de deslocamento e fuga, surge entre os povos uma linguagem subliminar que privilegia os laços de interdependência e busca da harmonia, através de um sem numero de códigos sociais reveladores da sutileza da convivência destes povos.

Viver sob o regime instável das chuvas ou sob o rigor da seca, sob a ameaça de ocupação e escravidão favorece o exercício da busca do equilíbrio e estimula a sobrevivência.

Pequenos gestos se revestem em meticulosos rituais e só podem ser compreendidos (e melhor apreciados) quando inseridos no contexto apropriado. Como exemplo, estão os gestos de cumprimento.

Se a busca pela harmonia e sobrevivência depende do cultivo das relações entre os grupos, é então a palavra que introduz e mantém o relacionamento entre os grupos, tornando-se o derradeiro caminho do exercício de se respeitar o outro e conquistar o próprio respeito.

Desta forma, a harmonia consiste em primeiramente evitar o conflito. Daí dá-se um delicado trabalho de arar a palavra, com o zelo de não acentuar as diferenças de opiniões entre grupos muitas vezes tão diversos.

De fato, entre os Dogon, o indivíduo só tem a palavra depois de muitos anos, quando ele está maduro e seu acervo, rico de experiências. Doce é o alento daqueles que já não estão aptos às tarefas que exigem vigor físico, que passam a servir de outro modo à sociedade a que pertencem.

Entre os Dogom, o Hogon, chefe espiritual da tribo, é necessariamente o mais ancião dos sábios. Cercado do respeito e do apoio da comunidade. É, o responsável pelo Altar do Lebé, o mítico progenitor dos Dogons ressuscitado sob a forma de serpente. O Hogon recebe a sabedoria da serpente sagrada e dirime as controvérsias sobre as cerimonias religiosas nas ocasiões de severidade da seca, doenças entre outros. 



Inicio da tarde, em Segou, finda-se o almoço, eu me afastara para observar aqueles que nos observavam há algum tempo: um grupo de crianças entretidas em seus afazeres de brincar. Minha presença logo alerta os adultos que, na dianteira, aproximam-se. As crianças, protegidas, sorriem ansiando o encontro. Os dois homens adultos, entretanto, são cordiais, mas mantêm uma distância prudente. Pouco depois, um dos nossos homens do suporte vem ao nosso encontro, certamente vem garantir que o código de apresentações seja executado corretamente.

Estamos eu e Alexy de passagem, a caminho de nosso próximo destino, aproveitando a sombra da acácia no terreno daquela comunidade para o almoço e o repouso. Antes mesmo de chegar, Alexy começa a salutar. Eu aguardava o ritual, como quem aguarda a sessão de cinema de um filme já algumas vezes assistido. E, embora soubesse o que viria a seguir, o que significava, a repetição da cena me maravilhava.

Versão do cumprimento - Muito bem.

Salutar devidamente e repetidamente (inclui uma serie de indagações sobre a saúde do indivíduo e de toda a sua família) é um ritual de aproximação não apenas necessário, mas obrigatório para o desenvolvimento da comunicação posterior.Não necessariamente a saúde de todos está boa: freqüentemente alguém está doente; a colheita pode na época ter sido prejudicada; ou os animais terem sofrido com o rigor da seca - o que de fato vai se revelar depois, mais amiúde, no desenrolar dos fatos, no tempo adequado quando o ritual de saudação e aproximação forem cumpridos.

O ritual de cumprimento não diminui de tamanho nem de intensidade, se os saudados são amigos, parentes ou têm contato freqüente. Ao contrario, sendo assim, todos ganham nomes. E as indagações são mais específicas, envolvendo todo o clã: o irmão mais novo, a irmã da mãe, a avó materna, o irmão do pai e assim por diante.

Para os Dogons - em sua língua, o nome Dogon significa aqueles aos quais foi dada a palavra - cumprimentar como um Dogon é ser um Dogon.Não há pressa no cumprimento - a despeito das tarefas por realizar. Este ritual não serve tão somente para demonstrar respeito e interesse, mas na totalidade do ato, simboliza afeto, corroboração da aliança e a manutenção dos vínculos. Não volte sem experimentar O fruto do Baobá - Cabrito assado com cuscus em Timbuctu. De preferência tente comer com as mãos. Para os viajantes arrojados. O termo"viagem de aventura" não é lá muito do meu agrado. Aventurar-se em viagem é ir a esmo, semplanejamento, como um andarilho sem muitasresponsabilidades. www.sztajn2go.com.br

- Boa tarde.

- Boa tarde.

- Como está a saúde?

- Muito boa.

- Você está forte?

- Sim estou.

- Como está a sua mãe?

- Muito bem

- Como está a sua irmã?

- Muito bem

- Como está seu pai?

- Muito bem.

- Como está a colheita?

- Muito boa.

- Como estão os animais?

- Muito bem.

Então e a vez do homem salutar:

- Boa tarde.

- Boa tarde.

- Como está a saúde?

- Muito boa.

- Você está forte?

- Sim estou.

- Como está a sua mãe?

- Muito bem

- Como está a sua irmã?

- Muito bem

- Como está seu pai?

- Muito bem.

- Como está a colheita?

- Muito boa.

- Como estão os animais?

Salutar devidamente e repetidamente (inclui uma serie de indagações sobre a saúde do indivíduo e de toda a sua família) é um ritual de aproximação não apenas necessário, mas obrigatório para o desenvolvimento da comunicação posterior.

Não necessariamente a saúde de todos está boa: freqüentemente alguém está doente; a colheita pode na época ter sido prejudicada; ou os animais terem sofrido com o rigor da seca - o que de fato vai se revelar depois, mais amiúde, no desenrolar dos fatos, no tempo adequado quando o ritual de saudação e aproximação forem cumpridos.

O ritual de cumprimento não diminui de tamanho nem de intensidade, se os saudados são amigos, parentes ou têm contato freqüente. Ao contrario, sendo assim, todos ganham nomes. E as indagações são mais específicas, envolvendo todo o clã: o irmão mais novo, a irmã da mãe, a avó materna, o irmão do pai e assim por diante.

Para os Dogon - em sua língua, o nome Dogon significa aqueles aos quais foi dada a palavra - cumprimentar como um Dogon é ser um Dogon.

Não há pressa no cumprimento - a despeito das tarefas por realizar. Este ritual não serve tão somente para demonstrar respeito e interesse, mas na totalidade do ato, simboliza afeto, corroboração da aliança e a manutenção dos vínculos. 

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Unknown Track - Unknown Artist
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